Bernard Pras constrói um mundo além das aparências

O artista plástico francês Bernard Pras se auto-denomina pintor, mas trata-se de um pintor pouco ortodoxo, já que, desde 1994, em vez de tintas e pincéis, se utiliza de toda sorte de materiais do cotidiano, industrializados ou não, para criar suas pinturas.
Suas obras são composições que se apresentam inicialmente na forma de instalações efêmeras e, em seguida, se transformam em fotografias, recurso que utiliza para dar perenidade às suas criações.
Nascido na pequena cidade de Roumazières-Loubert, no sudoeste da França, em 1952, Pras descobriu-se pintor ainda na adolescência, aos 14 ou 15 anos, como alternativa ao seu mau andamento nos estudos. “Eu não ia muito bem na escola e comecei a fazer pintura a óleo”, declarou o artista em entrevista.
O passo seguinte foi transferir-se para Toulouse, onde se diplomou em pintura, na Escola de Belas Artes local. Ali mesmo iniciou sua carreira profissional, como professor-assistente de desenho e, em seguida, como impressor de gravuras.
O envolvimento com gravura se intensificou com sua transferência para Paris, onde abriu um atelier de impressão e realizou obras de diversos artistas, como Karel Appel, Corneille e Niki de Saint-Phalle, entre outros.
A relação de Pras com a gravura também é insólita. Apesar de ter vivido durante anos da produção de gravuras e de ter criado uma técnica própria de impressão, a aquagravura, com a qual podia imprimir trabalhos com grandes relevos, o artista francês nunca produziu uma gravura própria.
“A aquagravura é um processo que eu inventei para realizar gravuras com grandes relevos, com muita matéria. O papel possui limites e não deixa que você vá além de um determinado relevo. E como eu sabia como fabricar papel, pois havia feito estágios em moinhos que fabricam papel na minha região natal, tive a idéia de unir a fabricação do papel a meus conhecimentos de gravura. Misturando os dois, criei um processo que me permite fazer um grande relevo conservando a integridade do papel, pois ele é produzido simultaneamente e já sobre o molde da gravura. Mas a gravura sempre foi um trabalho que eu tive para me manter. Nunca fiz uma gravura minha, mas apenas de outros artistas. Eu nunca abandonei a pintura”, disse o artista.
Não abandonou mesmo, nem a partir de 1994, quando iniciou a criação de seus “Inventários”, instalações construídas por meio dos mais diversos objetos do cotidiano (embalagens plásticas, brinquedos, tecidos, rolos de papel higiênico, eletrodomésticos, teclados de computador, materiais descartados em geral) e de materiais que retira da natureza, como pedras, galhos de árvores e folhas secas.   
Em seus “Inventários”, Pras reinventa retratos de artistas e obras clássicas de grandes mestres (Van Gogh, Arcimboldo, Andy Warhol, Francis Bacon, Manet, Hokusai); ícones da história da humanidade (Che Guevara, Albert Einstein, Marilyn Monroe, Jesus Cristo), personagens de desenhos animados (Mickey Mouse, Mulher Gato, Homem América, Mulher Maravilha, Surfista Prateado), personagens da cultura francesa (rei Luís XIV, Marianne, rua St. Denis, o galo), além de retratos de amigos.
Não se trata, contudo, de uma acumulação de objetos heteróclitos, de uma colagem de objetos tridimensionais, como acontece nas esculturas “Cabeça de Touro” ou “A Cabra”, ambas de Pablo Picasso (1881-1973), realizadas com objetos do cotidiano: a primeira com um guidão e um banco de bicicleta e a segunda com colheres, peças de automóveis, parafusos etc.
Suas instalações possuem uma característica particular. Ao contrário das duas esculturas de Picasso, que podem ser vistas de maneira frontal, lateral e em sua forma tridimensional, como em geral se vê uma escultura ou instalação, as criações de Pras só se completam quando vistas a partir de um determinado ponto de vista, quando então os objetos que as compõem abdicam de suas características tridimensionais, se fundem e adquirem uma característica que é própria da pintura: a bidimensionalidade.
E neste momento, a partir deste ponto de vista, que Bernard Pras registra suas instalações efêmeras, seus “Inventários”, na forma de fotografias, garantindo-lhes assim uma perenidade maior.
Bernard Pras consegue esse efeito por meio de recursos técnicos da ótica, como a perspectiva e a anamorfose.
A perspectiva é um efeito que permite a representação de formas tridimensionais (objetos, pessoas ou paisagens) em superfícies bidimensionais por meio de regras matemáticas e geométricas de projecção, como um ponto de fuga e uma linha do horizonte imaginária.
Tal conhecimento já existia nas culturas clássicas gregas, romanas, chinesas e muçulmanas, mas foram popularizados nas artes plásticas e na arquitetura a partir do Renascimento (século 15) por meio do legado de arquitetos e artistas plásticos italianos, como Filippo Brunelleschi (1377-1446), considerado o pai do Renascimento; Leon Battista Alberti (1404-1472), autor de “De Pictura” (c. 1435); Piero della Francesca (1416-1492), autor de “De Prospectiva Pingendi” (c.1474); e de Leonardo da Vinci (1452-1519), autor de “Tratado da Pintura” (c. 1490-1517), escritos esses em que a perspectiva é tema recorrente.
A partir do Renascimento, a perspectiva se tornou a principal ferramenta da cultura plástica ocidental e, nos 400 anos seguintes, serviu para o desenvolvimento das mais diversas linguagens artísticas, inclusive para o surgimento da fotografia.
É, portanto, natural que a obra de Bernard Pras se complete por meio da fotografia, pois ambas (obra e fotografia) se fundamentam e só existem a partir da observância de regras da perspectiva, como a visão monocular a partir de um determinado ponto de vista, a imobilidade do espectador, a estabilidade do objeto observado etc.  
Em suas criações, Pras se apropria ainda de outro efeito ótico estudado e popularizado a partir do Renascimento: a anamorfose 
Palavra de origem grega (an + morphé), que significa “sem forma” ou “deformado”, a anamorfose é um efeito em que uma imagem irregular ou disforme pode ser vista de maneira regular apenas a partir de um determinado ponto de vista ou com o uso de algum sistema de reflexão, como espelhos cilíndricos, cônicos ou piramidais.
A técnica foi muito utilizada nos séculos 16 e 17 para criar jogos visuais ou para esconder retratos por questões políticas ou imagens pornográficas. Um dos exemplos mais clássicos de anamorfose na história da arte é a tela “Os Embaixadores” (1533; acervo da National Gallery, de Londres), de Hans Holbein, o Moço (1497/98-1543), que apresenta em sua parte inferior uma figura distorcida. Por meio do uso de um espelho ou de recursos tecnológicos atuais, é possível ver naquela deformação a figura de um crânio (“vanitas”; a representação da fragilidade humana frente à eminência da morte).
No caso das instalações de Bernard Pras, existe certamente a intenção de surpreender e divertir o espectador com jogos visuais inusitados, mas também existe uma reflexão sobre a criação de imagens no mundo contemporâneo, que envolve questões filosóficas, religiosas e culturais, como ao deslocar o ponto de vista para o espectador, que assim se torna o centro da obra, ou ao exigir dele uma mudança de posição, para então enxergar a ordem onde até então só havia o caos. “Uma questão que eu quero dividir é a experiência de ter uma primeira visão das coisas e depois perceber que há uma segunda visão. Se o espectador olha minha instalação de lado, pode sentir que existe uma espécie de caos, mas dependendo de seu ponto de vista ele encontra a ordem. Trata-se de uma problemática da existência humana”, disse o artista.

 

Créditos da exposição:

Organização
Edson Thebaldi e and Sérgio Gonçalves

Curadoria e Texto
Celso Fioravante

Tradução
Marcelo Nunes

Projeto Gráfico
João Monteiro

Comunicação
Alice Fernandes

Equipe
Célia Lopes, Claudia Lancelloti, Eloanda Neves,
Maria Herondina Cardoso Granadeiro, Paulo Nunes,
Ricardo do Espírito Santo, Roberto Barbosa

Impressão
Zit Gráfica e Editora Ltda.

Agradecimentos
Claudia Cauzzi, Delphine Repicand, Fernando Horta, João Carlos Saad,
Laura e Roberto Michelino, Magno Salgueiro, Maurício de Sousa, Paulo Barros
e aos funcionários do Barracão da Unidos da Tijuca.


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